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2 de Dezembro de 2009

AgileDay em Porto Alegre – Como foi

Dia 1/12/09 ocorreu o AgileDay em Porto Alegre, no auditório da Faculdade de Informática da PUCRS. A edição trouxe nomes conhecidos no mundo agile aqui do Brasil, o que engrandeceu o evento.

agileday Porto Alegre - www.agileway.com.br

Confira aqui um review (completão) do que aconteceu no evento!

Palestras

Foi um evento com boa presença de público. Não sei os números finais, mas acredito que pelo menos uma centena de pessoas estava presente. O evento começou às 9h, com uma abertura e agradecimentos.

Às 9h15 tivemos a palestra do Vinicius Teles da  Improve IT, intitulada “Negócios Ágeis”.

vinicius teles agileday Porto Alegre - www.agileway.com.br

O objetivo era apresentar uma visão de como podemos criar uma startup usando a mentalidade ágil. A palestra foi, na minha opinião, excelente. O Vinicius já é bastante conhecido pelas suas palestras, várias disponíveis na internet (inclusive aqui no blog), e normalmente traz o assunto de uma maneira super acessível até para quem não está familiarizado com o assunto.

Diversos pontos forma abordados: desde coragem para abrir um negócio, até negociação, vendas, marketing e um pouco de desenvolvimento. Uma das frases que eu considerei mais interessantes da sua palestra foi:

“Para o usuario a interface é importante. Comece sempre por ela. Ajuda no feedback. A tela puxa o codigo.”

Ele apresentou bastante essa preocupação de que, para o cliente final, a interface sempre é importante. Além disso, com essa interface é possível descobrir coisas que no momento não fossem claras: funcionalidades, usabilidade, campos de preenchimento, cores… tudo isso pode ser discutido. E mais do que isso: os programadores se focarão apenas no que é necessário.

Outra frase interessante foi:

“O dono vai se tornar o gargalo. Treine, automatize e delegue. Garanta a consistência.”

Ele admite que hoje é o gargalo da sua empresa. Chega um momento em que participar das decisões técnicas se torna difícil. Portanto, é imperativo treinar sucessores ou mesmo toda sua equipe para que haja uma independência em relação a questões de negócio ou de produto.

Ele é o autor do único livro de XP em português, no Brasil. E é um defensor da técnica de pair programming. “Potencializa a comunicação, a colaboração e, principalmente, dissemina o conhecimento do projeto”, foram suas palavras.

O Vinícius criou um produto chamado “Be on the net” orientado a fotógrafos que querem ter todo o seu serviço de website e suporte para manter seu portfolio na internet. Criou com base na necessidade da sua esposa. E hoje o serviço é utilizado por diversas outras pessoas. Detalhe interessante: ele estima que 95% de novos contratos foram originados pela simples inclusão de um “convite” para o fotógrafo ter seu próprio site, que está presente em todos os websites.

Ao final da apresentação, questões interessantes foram levantadas (você pode ver o vídeo ao final). Ele praticamente terminou com a frase: “O Ambiente corporativo é muito disfuncional. Por isso estou fora desse mundo”. Empreendedorismo na veia 🙂

Após um rápido coffee break, às 11h iniciou-se a palestra do Eduardo Peres, sócio da DBServer. E esta foi talvez a palestra que causou maior discussão. Com o tema “Linha Ágil: Integração de Disciplina e Agilidade em uma Organização CMMI nível 2”, a palestra já causou alguma comoção em alguns que entendem que CMMI e Agile são excludentes.

eduardo peres agileday Porto Alegre - www.agileway.com.br

A palestra foi num formato de case, onde o Peres contou como a sua empresa saiu do caos até a busca da certificação CMMI nível 2, e posteriormente à implantação do Scrum. A transparência com a qual o Peres falou foi bem interessante, fugindo daquela idéia de passar um case “maquiado” onde tudo é lindo e maravilhoso. A empresa foi uma das precursoras da utilização do RUP, no Brasil.

Ele foi bastante honesto em dizer que eles ainda estão aprendendo e adaptando conforme a necessidade. Comentou da mudança cultural de ter gerentes de projetos desktop (aqueles cujas planilhas e cronogramas no Project são lindos, mas os projetos estão afundando) para o modelo de Scrum, com líderes e facilitadores.

Admitiu, de certa forma, que a busca da empresa pela certificação CMMI 2 foi um erro: eles tiveram isso como objetivo e seguiram pensando em se adequar ao modelo, mas esquecendo-se de verificar se a realidade comportava isso. Não teve medo de dizer que mesmo com o modelo de maturidade, pouca coisa mudou de fato. Buscou trazer algumas referências de que CMMI e Scrum (agile) já “namoram” há algum tempo. Este talvez tenha sido um dos comentários que causou maiores comentários entre alguns agilistas.

O Peres expressou sua preocupação ao falar da dificuldade de adotar um contrato de escopo variável, adaptando então um contrato de escopo fixo à algumas clausulas que seriam aderentes ao agile. Nesse momento ele questionou à platéia quem já havia participado de um projeto cujo escopo inicial foi o mesmo que o final, e o cliente ficou satisfeito. Eu estava distraído e pensei que se tratava de uma pergunta inversa (que vai ao encontro do que discordamos desse tipo de contrato fixo) e acabei levantando a mão. Hehe foi o suficiente para que o Peres  (que já havia sido meu professor na faculdade) aproveitar para brincar comigo até o fim da palestra.

<parênteses > Eu de fato participei de um projeto que o escopo inicial foi igual ao final. Foi um website cujo próprio cliente pediu para que o contrato tivesse várias restrições para evitar mudanças e assim ser entregue mais rápido. As únicas mudanças foram de conteúdo (texto), mas o escopo foi o mesmo do planejado. O cliente ficou satisfeito. Não encantado, mas satisfeito. Foi o único dos projetos que eu participei que aconteceu isso. </parênteses>

A DBServer ainda foca em gestão de riscos: eles utilizam um “risk backlog” onde controlam os riscos inerentes ao projeto. Durante a Daily Meeting, os desenvolvedores são orientados a responder, além das três conhecidas questões, se eles enxergam algum risco que possa impactar no projeto. Ainda comentou que os Scrum Masters, assim como os gerentes de projeto, também são responsáveis por tarefas administrativas (relatórios, por exemplo). Além disso, eles estão buscando a criação de comitês de especialistas para disseminar conhecimento e discutir questões de projeto. Esses pontos foram bastante curiosos, e diferem bastante do que conhecemos como agile/Scrum.

Ao final da palestra, ficou a impressão de uma empresa que ainda está andando sem saber se continua watefall ou migra de vez para o Agile. A união de CMMI e Scrum não ficou muito clara e talvez isso quebre já o primeiro dos valores ágeis, onde valorizamos mais as pessoas e comunicação do que processos e ferramentas. E CMMI é quase que inteiramente orientado a processos e ferramentas.

Apesar dessa sensação, foi uma palestra interessante, trazendo uma visão e um case interessante. Ah sim, e para quem estiver interessado, ele não deixou de falar que a DBServer conta com mais de 50% da sua força de trabalho composta por meninas! Talvez a única empresa de TI com esse perfil, no Brasil 🙂

Pausa para o almoço.

almoço agileday Porto Alegre - www.agileway.com.br

Momento para confraternizar, conversar informalmente e, lógico, comer bastante (o restaurante que fomos é conhecido pelo exagero!).

Deu-se início então, às 13h45, a palestra do Carlos Vilella, o primeiro funcionário brasileiro da ThoughtWorks. A sua palestra foi intitulada “Integração e entrega contínua” (só eu que sou dislexo e me atrapalho falando integrar/entregar? hehe).

carlos vilella agileday Porto Alegre - www.agileway.com.br

Esta foi uma palestra bem técnica. Ele abordou um assunto específico sobre como integrar diariamente (e a cada iteração) os módulos desenvolvidos. O Carlos defendeu bastante o estudo e entendimento da Integração Contínua, a ponto de dizer que este é o item mais importante do XP e dos métodos ágeis.

Um roteiro para a Integração Contínua: Compilação automatizada, Testes unitários / integração automatizados, Testes de aceitação automatizados, Deploy para homologação / testes automatizados e Deploy para produção automatizado.

Ele bateu bastante forte também na questão de testes.

Infelizmente para quem está lendo aqui, vou ter que admitir. Como ele discutiu assuntos bastante técnicos, eu não consegui acompanhar. Sempre disse que eu seria um desenvolvedor infeliz se continuasse nessa área, pois realmente não é o tipo de assunto que me prende a atenção. Pra completar, foi nesse momento que o meu celular (onde eu fazia alguns tweets sobre o evento) resolveu descarregar a bateria. Passei o resto da palestra tentando conectar o Wifi, sem sucesso.

Você pode ver as perguntas e respostas que eu filmei, no fim deste artigo.

Apesar do assunto técnico, o Carlos demonstrou ter um conhecimento absurdamente grande no assunto. Se vocês curtem o assunto, não deixem de buscar algum review sobre a palestra que possa complementar o que está aqui!

A última palestra, às 15h, do Manoel Pimentel editor da revista Visão Ágil e também da InfoQ BR, foi intitulada “Coaching e facilitação“. Wah! That’s what I’m talking about!

manoel pimentel agileDay Porto Alegre - www.agileway.com.br

Ok, vou procurar ser contido para não puxar tanto a sardinha para essa palestra… 🙂

O Manoel trouxe uma visão bem focada em treinamento, pessoas, liderança, filosofia, psicologia, etc. Começou fazendo uma dinâmica divertida sobre quebra de paradigmas. “Cruzem os braços. Agora relaxem. E agora tentem cruzar os braços da forma inversa”. A dificuldade, ele disse, é a mesma que se tem ao nos depararmos com algo novo, que quebra paradigmas e valores antigos.

Ele contou uma pequena fábula, da “Águia e da Galinha”. Era uma águia que fora criada como galinha, e por mais que se tentasse mostrar para a águia que ela era de fato uma águia, ela continuava agindo como galinha. Só através de um processo de facilitação e coaching é que a águia finalmente pode se tornar de fato o que ela realmente é.

Vimos que o principal motivo de mudanças de processo e cultura não funcionaram são por causa das pessoas, um fato óbvio, mas normalmente esquecido por muitos na hora de levar em consideração.

O Manoel então trouxe a visão do que NÃO é o Coach:

“Coach não é treinamento. Não é terapia. Não é consultoria. Coach orienta, trata da evolução profissional e ajuda a descobrir.”

O coach utiliza muito as práticas cognitivas e lúdicas para ser um facilitador no processo de aprendizado e descoberta. Nesse momento fizemos outra dinâmica, onde fomos perguntados a buscar quantos objetos vermelhos encontrávamos no salão. Ao responder o valor, ele perguntava em seguida: “E amarelos? Vocês sabem dizer?”. Ou seja, somos muito orientados a fazer o que é mandado, sem prestar atenção no todo e nas demais variáveis.

Coach é, antes de mais nada, tratar com pessoas. E entender que o que é a base de um relacionamento é a confiança. Portanto um Coach precisa entender e estudar aspectos psicológicos, filosóficos, sociológicos e de relações humanas, antes de tudo.

Seguindo essa linha, o Manoel trouxe alguns aspectos sobre psicologia como a Janela de Johari (para o auto-conhecimento) e as três instâncias da mente: id, ego e super-ego. O id, que normalmente adormece no inconsciente, pode ser facilmente revelado quando estamos bêbados! Portanto tomem cuidado com a bebida 🙂

O Manoel demonstrou que o uso da Teoria das Restrições pode ser uma ferramenta sensacional para identificar causa/efeito em situações. Podemos, por exemplo, identificar que a origem de um conflito entre um chefe/funcionário transcende o simples fato de que eles tem ideias divergentes. A causa-raiz pode ser mais embaixo (quem sabe um conflito pessoal?).

Um ponto muito interessante que ele tocou foi com relação ao termo MOTIVAÇÃO. Costumamos dizer que queremos trabalhar em um ambiente motivador. Mas será que a motivação é algo bom? E se a motivação da empresa for baseada em chicote e tambores, como uma galé viking? Não deveríamos buscar um ambiente que nos cause PRAZER, ao invés de DOR? Essa abordagem é a mais correta.

Outra reflexão interessante é quando traçarmos uma meta, procurar identificar o que poderemos perder durante o percurso para alcançá-la, e também após alcançá-la. Ou seja, realizar uma análise dos ganhos e perdas, ao traçar uma meta, tornasse imperativo. Temos que pensar também muito no ROE (retorno sobre energia), ou seja, buscar obter valor em tudo o que nós gastamos energia.

E os sabotadores? Como lidar com eles? Em empresas onde o coach irá atuar, quase sempre haverá um sabotador. Aquele que fará o possível para se manter na zona de conforto. É preciso criar um comprometimento nas pessoas, envolvendo-as de forma que esse sabotador se torne irrelevante no processo de crescimento e aprendizagem.

Um coach jamais pode se limitar a valores. E talvez esse seja uma das maiores dificuldades que existem. Todos nós temos crenças e valores. Mas se formos atuar como coach, temos que evitar que isso se torne um limitador. Não podemos dizer que “PMBoK não funciona” ou que “CMMI é ruim”, pois dessa forma já estamos sendo tendenciosos e iniciando um processo sem nem ao menos saber se eles podem ou não ser adaptados àquela realidade.

Ele termina a sua apresentação com um único pensamento para quem quiser atuar como coach: “NÃO JULGARÁS!”.

Enfim, a palestra foi sensacional. Demonstrou como esse campo de atuação é importante para a introdução de qualquer nova cultura, seja um processo ágil, seja um novo tipo de filosofia ou comportamento. Não tenho dúvidas que foi uma das melhores palestras que eu assisti nos últimos tempos (droga, tentei não puxar a sardinha, mas não deu hehe).

Então o evento foi finalizado com uma “mesa redonda” (só no nome mesmo) onde todos os participantes eram provocados com algum tema sugerido pela platéia (ou pelo Daniel Wildt hehe) e discutiam sobre. Foram assuntos muito bacanas, desde usabilidade/criatividade até planos de carreira e mercado de trabalho. Mas agora eu vou deixar que o vídeo faça a sua parte 🙂

Conclusão

Um excelente evento. Para todos os gostos, para todos os níveis de conhecimento. Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente o Vinicius e o Manoel, que eu já havia trocado mensagens pelas listas e pelo Twitter. São pessoas muito bacanas e fica a impressão que poderíamos ficar horas e horas debatendo sobre agilidade, futebol, fotografia, nerdices e afins que sempre haveria assunto.Também foi legal para conhecer pessoas com as quais eu já conversava seja pelo Twitter, seja pelas listas, seja pelo próprio blog.

Um parabéns especial a todos que organizaram o evento (Daniel, Luiz, Rafael e outros), as empresas que patrocinaram e apoiaram o evento e também todos que compareceram. No próximo eu vou ver se ajudo na organização para que haja uma forma de filmagem e divulgação em “tempo real” (twitter, cameras, etc) para que mais gente tenha acesso a esse encontro.

Eu prometi a mim mesmo que irei tentar organizar um evento “spin-off” para completar o excelente trabalho que o GUMA-RS tem feito. Valeu e agora fiquem com algumas fotos e vídeos 🙂

De negativo? A ausência de um Wi-fi e de uma filmagem para as palestras (eu fiz as vezes com meu celular e minha camera digital, mas com muitos problemas – pilhas e bateria).

Fotos (aguardem os links para mais fotos de outros)

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Rafael e Daniel na correria para organizar a próxima palestra.

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Parte da platéia (mais de 120 presentes). Gente de várias áreas de atuação.

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Manoel Pimentel jogando Counter Strike para relaxar.

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Vinicius Teles desenvolvendo o Be on the Net 3.0 durante o evento.

Twitter

Não deixe de conferir o que rolou no Twitter com a tag #agileDayPoa. O próximo evento terá uma cobertura maior 🙂

Vídeos

Sessão de Q&A da palestra do Vinicius Teles

Sessão de Q&A da palestra do Eduardo Peres

Sessão de Q&A da palestra do Carlos Vilella

Sessão de Q&A da palestra do Manoel Pimentel

Mesa de debates com os palestrantes



4 Comentários para “AgileDay em Porto Alegre – Como foi”

  1. […] This post was mentioned on Twitter by Manoel Pimentel and lucabastos, Eduardo Cordeiro. Eduardo Cordeiro said: o #agiledayPoa segundo @flaviosteffens http://agileway.com.br/2009/12/02/agileday-em-porto-alegre-como-foi/ […]

  2. Oi, Flavio.

    Excelente este review que você fez do evento. Muito obrigado pelo tempo dedicado para criá-lo e pela forma cuidadosa com que descreveu todas as partes do evento. Parabéns!

    Grande abraço,

    Vinícius

  3. […] AgileDay em Porto Alegre – Como foi – Flávio Steffens (agileway); […]

  4. aline diz:

    muito importante esse encotro parabens pelo conteudo valeu por compartilhar as informações .

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