Seis horas de trabalho por dia « Agile Way


8 de Janeiro de 2013

Seis horas de trabalho por dia

O Brasil, por lei, decretou que a jornada de trabalho é de 40 horas por semana, ou 8 horas por dia. Pelo menos é o que as empresas seguem há tempos. Até pouco tempo atrás, eram 44 horas semanais.

Ou seja, o brasileiro passa um terço do seu dia no trabalho, isso sem somarmos o período do deslocamento!

As vezes não temos noção real do que isso significa. Porém, existe uma história muito bacana sobre o impacto positivo da redução da jornada do trabalho para 6 horas. Conheça a história da jornada de trabalho de seis horas, criada pela Kellog’s, em meados do século passado.

O ano era 1930. Os Estados Unidos enfrentavam a sua pior crise financeira da história recente. Você deve lembrar de ver filmes onde as pessoas pulavam das janelas, por terem perdido tudo. Pois é, o cenário era trágico mesmo. Milhares de pessoas perderam o emprego. Muitos tiveram que abandonar suas casas e viver na rua. A situação era terrível.

Uma das empresas que sofreu com este problema foi a Kellog’s (sim, a empresa dos cereais).

Porém a empresa tinha pessoas que estavam além do seu tempo. W.K. Kellog’s era um deles. Visando manter a produtividade da empresa e ajudar a sociedade, W.K. passou a fábrica de três turnos para quatro turnos. E reduziu de 8 para 6 horas a jornada de trabalho.

Resultados

Segundo os seus cálculos, isso representaria 30% de empregos a mais de empregos na empresa, para as pessoas que estavam desempregadas. Visando manter o padrão das pessoas que trabalhavam na empresa, ele ainda aumentou na média 12% o valor hora dos empregados. O salário foi reduzido, mas não muito.

A experiência de W.K. foi um sucesso instantâneo. Ninguém reclamou por ter o salário levemente reduzido. Os benefícios de ganhar 2 horas a mais para “viver a vida” se demonstraram um atrativo incrível para os trabalhadores. Agora eles tinham mais tempo para sair com os amigos, descansarem, conversarem no bar, enfim. A produtividade aumentou de forma impressionante, atraindo a atenção da mídia e de escolas de administração.

Com mais tempo, as pessoas começaram a se relacionar mais, mantiveram a moral alta e se envolveram com a comunidade local e, principalmente, com a família. Ou seja, nada de chegar em casa cansado, esgotado e só querer deitar no sofá e dormir. Agora era possível aproveitar com os filhos e a esposa (ou marido). A leitura, a busca por hobbies (pintura, dança, etc) e até mesmo as atividades físicas causavam um impacto positivo nas próprias pessoas (aumento da cultura e criatividade, por exemplo) como também melhorava a saúde das pessoas.

Os homens e mulheres da Kellog’s estavam felizes. A motivação era altíssima. E isso se refletia nos resultados financeiros da empresa.

Um funcionário da época relevou, em entrevista posterior, que o dinheiro extra recebido durante as 8 horas de trabalho não pagavam o stress que a jornada causava. E que, se pudesse, manteria as 6 horas para sempre.

Voltando para 8 horas

Então em 1938 as coisas começaram a mudar. Mudanças na administração da empresa, organização interna dos departamentos e pressões políticas começaram a questionar a jornada de seis horas da Kellog’s. Afirmavam que os custos estavam crescendo em taxas insustentáveis para a empresa (e com isso, o lucro reduzindo).

E estourou a Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos se tornaram peça chave importante para os aliados, tendo que tocar a produção em ritmo acelerado. Foram realizadas diversas conversas com os trabalhadores, que acabaram compreendendo a situação atípica do mundo, e a empresa retornou para os três turnos de 8 horas. Os velhos tempos voltavam, a contragosto.

Com o fim da Guerra, os trabalhadores fizeram pressão para a volta da jornada de 6 horas. A administração da empresa tentou convencê-los a manter as 8 horas. Foram feitas assembleias onde o turno de 6 horas acabou vencendo nas votações na proporção de 3 votos para 1.

“Terrorismo” da direção e a “mudança de cultura”

Então começou o terrorismo invisível dos administradores (gerentes e diretores): a primeira tática foi dividir os trabalhadores, informando que aqueles que quisessem trabalhar mais horas, poderiam fazer sem problemas (e ganhariam mais!).

E, a tática que acabou funcionando para o longo prazo: os administradores deixaram de ser os carrascos que cobravam resultados, para serem “coaches”. Mas não para fazer um “coaching” do bem. O objetivo deles era de mostrar a importância de “trabalhar mais”, de como era “um desperdício de tempo voltar cedo para casa, enquanto os outros homens nas outras empresas estavam trabalhando”,  “nas outras empresas a coisa funciona em 8 horas, por que temos que ser diferentes?” além do bom e velho “liberdade é bom, mas dinheiro é melhor”.

Por incrível que pareça, isso surtiu efeito. Trabalhadores que eram a favor das 6 horas, começaram a mudar de ideia e enxergar as 8 horas como realmente necessárias. Os benefícios daquelas 2 horas extras começaram a sumir. A pressão e o estresse foram voltando aos poucos no dia-a-dia do trabalho.

Muitos empregados, em entrevistas posteriores, não souberam responder por que mudaram de ideia. A maioria se mostrou adepta as ideias dos administradores, embora falassem com orgulho da época da jornada de 6 horas.

Conclusão

Quando falamos da geração dos Baby Boomers, normalmente os associamos aquelas pessoas onde a vida só daria certo mediante trabalho árduo e duro. E isso se refletiu na experiência da Kellog’s. Apesar das pessoas da época virem de uma jornada de trabalho de 8 horas, mudarem para 6 horas e se beneficiarem, alguns anos após o retorno para as 8 horas, eles já haviam assimilado a nova realidade como a “correta”.

A experiência da Kellog’s mostra como uma mudança de cultura pode impactar na realidade de uma empresa.

O fato é que os questionamentos estão voltando. Será que vale mesmo trabalhar demais e não aproveitar a vida? A geração Y e a Z (ou como você quiser chamar) está percebendo que vida pessoal e vida profissional podem se misturar de forma saudável.

Cada vez mais o ritmo desenfreado e constante de trabalho não vai combinar com as pessoas.  E nós, como empresários (e empreendedores) precisamos perceber isso.

Você não precisa necessariamente reduzir a jornada de trabalho para 6 horas. Mas pode torná-la flexível. Pode combinar atividades fora da rotina de trabalho para beneficiar sua equipe.

Lembre-se dos resultados da experiência: mais motivação, mais produtividade, mais engajamento, mais criatividade. Não são aspectos que você gostaria de ver na sua empresa?

A experiência de W.K. Kellog’s, em 1930, quem diria, pode nos inspirar 80 anos depois.



8 Comentários para “Seis horas de trabalho por dia”

  1. Cassiano Leal diz:

    A jornada de trabalho padrão no Brasil ainda é de 44h. Algumas categorias, em alguns estados, conseguiram reduzir suas jornadas para 42h ou 40h, mas isso é de longe o padrão.

  2. Leandro diz:

    Achei muito interessante o texto. Gostaria de indicação de materiais para ler mais sobre esse caso da Kellog’s. Obrigado.

  3. lfz diz:

    Pelo menos no campo de informática que é onde trabalho é um absurdo acharem que o cara consegue trabalhar efetivamente 8 horas. Claro você até pode ficar lá 8 horas sentado fazendo alguma “coisa”, mas é muito mais produtivo trabalhar de maneira focada por umas 3 ou 4 horas e poder relaxar depois, mas digam isso para os empregadores.

  4. Cassiano Leal diz:

    Lucas: Aqui no RS, a jornada é de 44h, como é o padrão estabelecido pela CLT. O SINDPPD/RS passou o ano todo lutando pela redução da jornada e ajuizou o acordo coletivo. O processo se enrolou tanto que só será julgado em fevereiro (acho), sendo que é relativo ao ano passado. O sindicato patronal discutiu até a última instância, e por isso ficamos sem acordo no ano passado. Tanto pior para eles, que terão de pagar dois anos de acordos ao mesmo tempo, incluindo retroativos.

  5. Acho que estou trabalhando alem da conta.

  6. O correto seria aumentar a flexibilidade da legislação para que as empresas pudessem negociar diretamente com os funcionários em função da característica de cada mercado. Para isso seria necessário reduzir o risco de passivos trabalhistas para as empresas, ou todos os empresários ficariam com medo de qualquer acordo sair caro mais tarde em um processo. Regras gerais que imponham alguns limites são boas, mas quando Estado quer rigidez excessiva o resultado nunca é favorável.

  7. Rodirigo diz:

    Eu tenho que arranjar um novo emprego,ou montar um negocio pra mim,pois ta freud de Segunda das 8 as 6 e de sabado das 8 as 11.Socorro XD

  8. Marcio Juppes diz:

    Acho um absurdo isso e uma baita de uma burrice os dias estão passando e ficar trancafiado em um escritório não da mais.

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